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Amor verdadeiro



Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.
Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.
- È só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe – ele me disse. – E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.
Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:
- Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.
- O que é um amor verdadeiro? – disse eu.
- Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.
- Estou pronto – disse eu.
- Elimine todos os homens primeiro – disse ele.
Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.
- Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos – disse ele – e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.
Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.
- Não estou certo quanto à cor dos olhos – disse Milton. – Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.
Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.
- Não posso entrevistar 235 mulheres – disse ele. – Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.
- Isso traria problemas – disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.
- Isso não é da sua conta – disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. – Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.
Ele trouxe holografias de mulheres.
- Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza – disse. – Veja se alguma das 235 corresponde.
Oito eram correspondências muito boas.
- Ótimo – disse Milton. – Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. – Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: – Ordem alfabética.
Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.
A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse-.
- Deixe-me levá-la para jantar.
- De certo modo não foi bom – Milton me disse no dia seguinte. – Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.
Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.
- Não consigo entender, Joe – disse ele. – Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?
- Você as agrada? – disse eu.
Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.
- É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?
Ele pareceu pensar todo aquele dia.
Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:
- Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.
- E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?
- Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)
Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.
- Veja só, Joe – disse ele. – À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.
Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.
Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.
Certa vez, eu disse a ele:
- Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?
- Absolutamente nada – disse ele. – Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.
Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.
- Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.
O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.
Milton parecia muito feliz.
- Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.
E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.
Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.
Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista conosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.
Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.
Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?
Eu direi a ela:
- Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.
Isaac AsimovPublicado originalmente no livr Nós, Robôs, Hemus Editora

A ÚLTIMA RESPOSTA




O outro conto de Asimov que eu disse que postaria.

ISAAC ASIMOV
SONHOS DE ROBÔ

Murray Templeton tinha 45 anos de idade; estava na plenitude de sua vida e com todas as partes do
seu corpo funcionando com perfeição... exceto alguns trechos vitais de suas artérias coronárias.
Isso no entanto, foi o suficiente. A dor veio repentinamente, chegou a um ponto insuportável e, aos
poucos, foi diminuindo. Ele podia sentir a respiração parando. Uma deliciosa sensação de paz o inundou.
Não há nada mais agradável do que a ausência de dor - imediatamente depois da dor. Ele sentiu uma
alegria vertiginosa, como se tivesse levitado e estivesse pairando no ar.
Abriu os olhos e percebeu, com uma discreta alegria, que os outros ainda estavam agitados. Estava no
laboratório quando a dor o abateu sem nenhum aviso; ao cambalear ouviu os outros gritando surpresos.
Depois tudo deu lugar a uma agonia avassaladora.
Agora que a dor tinha passado os outros ainda estavam inquietos, ansiosos e reunidos em torno do seu
corpo caído...
Repentinamente, ele percebeu que estava olhando a cena, lá do alto. Seu corpo estava lá embaixo,
estirado no chão, com o rosto contorcido. Ele estava aqui em cima, observando em paz.
Pensou: milagre dos milagres! As besteiras sobre a vida eterna estavam certas.
Apesar de ser uma maneira humilhante para um físico ateu morrer, ele apenas sentiu uma agradável
surpresa, não houve nenhuma alteração na sensação de paz em que tinha mergulhado.
Ele pensou: devia haver algum anjo - ou uma coisa no gênero - vindo me receber.
A cena terrestre estava se desvanecendo. Sua consciência foi invadida pela escuridão e de um ponto
distante, como um último relance de visão, apareceu uma figura iluminada, com forma vagamente humana,
irradiando calor.
Murray pensou: estão brincando comigo. Estou indo para o céu.
Assim que ele pensou nisso, a luz se apagou, mas o calor continuou. A sensação de paz não diminuiu,
apesar de, em todo o Universo, restarem apenas ele... e a Voz.
- Faço isso com muita freqüência - disse a Voz, mas ainda assim me emociono a cada sucesso.
Murray pensou em dizer algo, mas não sabia se possuía uma boca, uma língua, ou cordas vocais. No
entanto, tentou articular um som. Sem a menor pretensão, tentou sussurrar palavras ou soprá-las ou colocá-
las para fora por intermédio da contração de... alguma coisa.
E elas foram pronunciadas. Ele ouviu sua própria voz, facilmente identificável, e suas próprias palavras,
infinitamente claras.
- Isso é o céu? - disse ele.
- Esse lugar não é como o lugar que você imagina - disse a Voz.
Murray ficou atrapalhado, mas tinha que fazer a pergunta.
- Desculpe se pareço um pouco imbecil, mas você é Deus? Sem mudar a entonação ou de algum modo
pretendendo soar com perfeição, a Voz conseguiu ser engraçada.
- É estranho que sempre me perguntem isso, claro que das maneiras mais diferentes possíveis. Você
não compreenderia a resposta que posso lhe dar. Eu sou... isso é tudo o que posso dizer de significativo, e
você pode me rotular com palavra ou conceito que lhe agradar.
- E o que eu sou? - disse Murray. - Uma alma? Ou eu ainda sou apenas uma existência personificada? -
Tentou não parecer sarcástico, mas não conseguiu. Rapidamente pensou em acrescentar "Vossa Alteza" ou
"Santidade" ou algo que atenuasse o sarcasmo, e não pôde dizer isso, mesmo que, pela primeira vez em sua
existência, admitisse a possibilidade de ser punido com o inferno ou coisa semelhante por causa de sua
insolência - ou pecado? A Voz não parecia ofendida.
- É fácil você explicar-se... até mesmo para você. Você pode se chamar de alma, se isso lhe agrada, mas
você, na verdade, é uma conexão de forças eletromagnéticas, arrumadas de modo a que todas as
interconexões e inter-relações sejam exatamente iguais às do seu cérebro em sua existência universal... até
nos menores detalhes.
Além disso, você tem capacidade para pensar, ter lembranças e uma personalidade própria. Você vai
achar que ainda é você mesmo.
Murray ficou perplexo.
- Você quer dizer que a essência do meu cérebro é permanente?
- Não, de jeito nenhum. Nada seu é permanente, a não ser o que eu decidir que seja. Eu criei a conexão.
Eu a construí enquanto você desfrutava sua existência física e ajustei-a para o momento em que sua vida
terrestre chegasse ao fim. - A Voz parecia visivelmente satisfeita consigo mesma e, depois de uma rápida
pausa, acrescentou:
- Uma construção complexa, mas muito precisa. É claro que poderia fazer isso com todos os seres
humanos do seu mundo, mas prefiro não fazer. Sinto prazer em escolher.
- Você escolhe muito poucos, então.
- Muito poucos.
- E o que acontece com o resto?
- Caem no esquecimento. Ah, é verdade, você acredita no Inferno.
Murray teria corado se ainda tivesse um rosto.
- Não penso assim. É só uma maneira de falar. Até agora, nunca tinha pensado que fosse virtuoso ao
ponto de chamar a sua atenção e me tornar um Eleito.
- Virtuoso? Ah, sei o que quer dizer. É um incômodo ter que me forçar a pensar no mesmo nível que o
seu. Não, eu o escolhi por causa de sua capacidade de pensar, assim como escolho outros, em quatrilhões,
em todas as espécies inteligentes do Universo.
Murray se sentiu subitamente curioso, um hábito que adquirira quando era vivo.
- Você escolhe as pessoas sozinho ou há outros iguais a Você? Por um instante Murray pensou que
estava tirando a paciência da Voz, mas, quando Ela surgiu, continuava imperturbável.
- Se há outros ou não isso é irrelevante para você. O Universo é meu, só meu.
É uma invenção minha, uma construção minha, tudo foi planejado só para satisfazer meus propósitos.
- E mesmo com quatrilhões de conexões criadas por você, você perde tempo comigo? Sou tão
importante assim?
- Você não tem a menor importância - disse a Voz. - com os outros eu ajo de um modo que, na sua
maneira de ver, pareceria igual.
- Você é único?
- Você está tentando me colocar numa armadilha sem consistência - disse a Voz, num tom novamente
divertido. - Se você fosse uma ameba que só pudesse considerar a individualidade em conexão com
pequenas células, e se fosse perguntar a um cachalote com 30 quatrilhões de células se ele é um ou muitos,
de que forma o cachalote poderia responder para que isso fosse compreensível para a ameba?
- Pensarei nisso - disse Murray secamente. - Talvez um dia venha a entender.
- Exatamente. É para isso que está aqui. Para pensar.
- Com que finalidade? Parece que você já sabe tudo.
- Mesmo que eu soubesse tudo não poderia saber que sei tudo.
- Isso me lembra a filosofia ocidental... uma coisa que parece profunda exatamente porque não tem
significado.
- Você promete - disse a Voz. - Você responde ao meu paradoxo com um paradoxo... Só que o que eu
digo não é um paradoxo. Pense. Eu existo eternamente, mas o que isso quer dizer? Isso quer dizer que não
posso me lembrar de quando comecei a existir. Se pudesse, não existiria eternamente. Se não posso lembrar
de como comecei a existir, então pelo menos há uma coisa - a natureza das minhas origens - que não sei.
Assim, mesmo que eu saiba o que é infinito, também é verdade que o que há para conhecer também é
infinito, e como posso ter certeza de que os dois infinitos são iguais? A infinitude do potencial de
conhecimento pode ser infinitamente maior do que a infinitude do meu conhecimento atual. Aqui está um
simples exemplo: se eu conhecesse a totalidade dos números inteiros pares eu teria um número infinito de
informações e, mesmo assim, ainda não conheceria um único dos números inteiros ímpares.
- Mas os números inteiros ímpares podem ser derivados. Se você dividir todos os números inteiros pares
dessa série infinita por dois, você vai obter outra série infinita que contém dentro de si a série infinita dos
números ímpares.
- Você tem a noção - disse a Voz. - Estou satisfeito. Sua tarefa será encontrar outros caminhos como
esse, por mais difíceis que sejam, do conhecimento para o ainda-não-conhecido.
Você ainda tem memória. Você se lembrará de todos os dados que já tenha pesquisado ou aprendido,
que já tenha deduzido ou que venha a deduzir desses dados. Se necessário, terá permissão para aprender os
novos dados que considerar relevantes para resolver os problemas que você mesmo estabelecer.
- Você não poderia fazer isso sozinho?
- Posso - respondeu a Voz. - Mas assim é mais interessante. Construí o Universo para ter mais fatos com
que lidar. Inseri o princípio da incerteza, a entropia e outros fatores casuais para fazer com que o todo não
seja tão monótono. Isso tem funcionado muito bem e tem me entretido ao longo de toda a minha existência.
- Depois, pensei em estruturas que dessem origem à vida, e, em seguida, à inteligência, e usei isso
como uma forma de pesquisa coletiva, não porque precise de ajuda, mas porque isso introduziria um novo
fator casual. Cheguei à conclusão de que não podia prognosticar a próxima área de interesse a ser
conquistada pelo conhecimento, de onde ela viria, de que forma seria obtida.
- Isso já aconteceu? - perguntou Murray.
- Certamente. Não há um século em que não apareça alguma coisa interessante em algum lugar.
- Algo que você poderia ter pensado sozinho, mas que até então não tinha feito.
- Sim.
- Você acha mesmo que há alguma coisa que eu possa fazer por você?
- No próximo século? Literalmente não. No entanto, a longo prazo o seu sucesso é certo, desde que você
se engaje para sempre.
- Poderei pensar eternamente? Para sempre?
- Sim.
- Para quê?
- Já lhe disse. Para adquirir novos conhecimentos.
- Mas, além disso, para que preciso descobrir novos conhecimentos?
- Foi o que você fez em sua vida terrestre. Qual o seu objetivo naquela época?
- Adquirir novos conhecimentos que só eu pudesse adquirir. Para ser admirado pelos meus
companheiros. Para sentir a satisfação de concluir um trabalho, mesmo sabendo que tinha um tempo certo
para alcançar o meu objetivo. Agora eu só poderia conquistar algo que, se você se esforçasse um pouco,
poderia descobrir sozinho. Você não pode me admirar. Você só quer se divertir. E não há mérito ou satisfação
em concluir um estudo quando se tem toda a eternidade para isso.
- Você não acha que um pensamento e uma descoberta se justificam por si só? Você não acha que isso
é mais importante do que qualquer objetivo pessoal?
- Por um tempo finito, sim. Não para toda a eternidade.
- Compreendo o seu problema. No entanto, você não tem escolha.
- Você diz que estou aqui para pensar, mas não pode me obrigar a fazer isso.
- Não pretendo obrigá-lo diretamente. Não precisarei disso. Já que a única coisa que pode fazer é
pensar, você pensará. Você não sabe como não pensar.
- Então, estabelecerei uma meta para mim. Inventarei um objetivo.
- Certamente, você pode fazer isso - disse a Voz, tolerante.
- Já encontrei um objetivo.
- Posso saber qual é?
- Você já sabe. Sei que estamos falando só por falar. Você ajustou minha conexão de um modo que
acredite ouvi-lo e falarlhe, mas você transfere pensamentos para mim diretamente. E quando minha conexão
muda com meus pensamentos, imediatamente você os adivinha, sem precisar da minha transmissão
voluntária.
- Você está surpreendentemente certo - disse a Voz. - Estou satisfeito. Mas também me satisfaz ter você
para me contar seus pensamentos voluntariamente.
- Então, eu lhe contarei. O objetivo de minhas reflexões será descobrir uma forma para interromper a
conexão que você criou para mim. Não quero pensar apenas com o propósito de diverti-lo. Não quero pensar
para sempre só para diverti-lo. Não quero existir para sempre só para diverti-lo. Todas as minhas reflexões se
voltarão
para acabar com essa conexão. Isso me divertia.
- Não faço nenhuma objeção - disse a Voz. - Até um pensamento concentrado no fim de sua própria
existência pode, a despeito de você, levar a algo novo e atraente. E, é claro, se você for bem-sucedido na sua
tentativa de suicídio, não concluirá nada, pois imediatamente eu o reconstruiria e, de uma certa forma,
tornaria seu método de suicídio impossível. E se você achasse uma outra forma mais sutil para interromper a
si mesmo, eu o reconstruiria com essa possibilidade eliminada, e por aí em diante. Poderia ser um jogo
interessante, mas, de um jeito ou de outro, você existirá eternamente. Esta é minha vontade.
Murray sentiu um tremor, mas as palavras saíram naturalmente.
- Estou no Inferno, afinal? Você afirmou que não, mas se isso fosse o Inferno, você mentiria, como parte
do jogo do Inferno.
- Nesse caso, tudo o que você precisa é que lhe garanta que não está no Inferno? Então, eu lhe garanto.
Aqui não há nem Céu nem Inferno. Somente eu mesmo.
- Leve em conta, então, que meus pensamentos podem ser inúteis para você. Se não posso ser-lhe útil
em nada, não lhe custará nada... me desmontar e parar de me incomodar.
- Como uma recompensa? Você quer o Nirvana como prêmio para o fracasso e quer me garantir que
fracassará? Não há nenhum acordo nisso. Você não falhará. com toda a eternidade pela frente, você não
pode evitar de ter ao menos um pensamento interessante, mesmo que seja contra sua vontade.
- Então criarei outro objetivo para mim. Não tentarei me destruir. Minha meta será desmoralizá-lo.
Pensarei em alguma coisa em que você não apenas nunca tenha pensado, mas na qual jamais poderia
pensar. Pensarei na última resposta, além da qual não há mais nenhum conhecimento.
- Você não compreende a natureza do infinito. Talvez haja coisas que ainda não tenha me preocupado
em saber. Mas não há nada que eu não possa saber.
- Você não pode saber sobre sua origem - disse Murray, pensativo. - Você disse isso. Além do mais, você
não pode conhecer seu fim. Muito bem, então. Esse será o meu objetivo e essa será a última resposta. Não
me destruirei. Eu destruirei você... Se você não me destruir antes.
- Ah - disse a Voz. - Imaginei que você precisasse de mais tempo para chegar a esse ponto. Pensei que
fosse demorar mais. Não há ninguém, em toda a minha existência de pensamentos perfeitos e eternos, que
não tenha a ambição de me destruir. Mas isso é impossível.
- Tenho toda a eternidade para pensar numa maneira de destruí-lo.
- Então tente pensar nisso - disse a Voz, serenamente.
Ela se foi. Mas Murray tinha seu objetivo e estava feliz.
E o que poderia alguma Entidade, consciente de sua existência querer... senão o fim? O que mais vinha
a Voz procurando, através de incontáveis bilhões de anos? E por que outra razão a inteligência tinha sido
criada, e certas espécies tinham sido protegidas e colocadas para trabalhar, a não ser para ajudar numa
grande procura? Murray pretendia que fosse ele e ele sozinho, o descobridor.
Cuidadosamente, com a excitação de quem agora tinha um objetivo, Murray começou a pensar.
Ele tinha tempo de sobra.

Quem foi Isaac Asimov ?


Por Evandro Berserker

"Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões."

Asimov era "ateu", ou como falava um racional.


O primeiro contato que tive com o autor foi no ensino médio quando um amigo me falava sobre as 3 leis da robótica e quem as concebeu, por sinal foi Asimov:
  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.
Mais tarde Asimov sentiu a necessidade de criar uma lei que sobrepuja todas as outras e se coloca como a lei zero:
  • Lei Zero: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por omissão, permitir que ela sofra algum mal.
Um dos três grandes mestres da ficção científica junto com Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein. Durante decadas se dedicou a estudar e pesquisar sobre robotica reproduzindo suas ideias em seu livros, contos e outros.

Asimov pretendia escrever 500 livros e, por pouco, não atingiu essa marca; escreveu 463 obras. Mas, somando todos os livros, desenhos e coleções editadas, totalizam-se 509 itens em sua bibliografia completa. Asimov pode ter escrito Opus 400, que seria uma comemoração de 400 publicações; contudo, a lista de comemorativos da bibliografia vai apenas até o Opus 300.

Asimov estavá a frente de sua época, fazia quase que predições sobre como seria a tenologia futurista, porem não preveu a minituarização dos gigantescos mainframes, alguns dizem que ainda existem bancos de dados gigantes, mas nada comparado com os antigos computadores.

Asimov descreveu a grande rede de computadores numa época que poucos tinham acessos a computadores e que muitos nem conheciam essas maquinas:

"Haverá uma tendência para centralizar informações, de modo que uma requisição de determinados itens pode usufruir dos recursos de todas as bibliotecas de uma região, ou de uma nação e, quem sabe, do mundo. Finalmente, haverá o equivalente de uma Biblioteca Computada Global, na qual todo o conhecimento da humanidade será armazenado e de onde qualquer item desse total poderá ser retirado por requisição."

Asimov não era um simples autor, mas antes um grande bioquimico naturalizado estadunidense, nascido na russia.
A principio tenho como propósito postar "A ultima pergunta" e depois "A ultima resposta" que é um pouco mais lingo, os dois são contos extraordinários.


Vale a pena

Por Caio Rodrigues Sukinha

Eu sou muito sincero, e realmente quando eu vi este post do Berseker "Isaac Asimov - A Última Pergunta", vocês nem imaginam o desanimo que me deu, sinceramente o post é imenso, no entanto , movido pela curiosidade eu li o 1º parágrafo apenas, e quando me dei conta , já estava no último parágrafo..........vale a pena ler, é uma leitura deliciosa.


LEIAM

Isaac Asimov - A Última Pergunta


Conto fantastico de Asimov
mais para frente falarei sobre Isaac Isimov
tradução de Luiz Carlos Damasceno Jr.

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma...


Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

"É incrível quando você pára pra pensar…," disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. "Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente."

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios. "Eternamente não," ele disse.

"Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert."

"Isso não é eternamente."

"Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?"

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida. "Dez bilhões de anos não é a eternidade"

"Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?"

"O carvão e o urânio também iriam."

"Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac."

"Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso"

"Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós," disse Adell nervosamente, "Ele fez tudo certo".

"E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?" Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. "E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol"

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, "Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?"

"Não, não estou pensando."

"É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra."

"Entendi," disse Adell. "Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado."

"Pode estar certo que sim" murmurou Lupov. "Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo."

"Eu sei tudo sobre a entropia," disse Adell, mantendo a sua dignidade.

"Duvido que saiba."

"Eu sei tanto quanto você."

"Então você sabe que um dia tudo terá um fim."

"Está certo. E quem disse que não terá?"

"Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`."

Era a vez de Adell contrariar. "Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia," ele disse.

"Nunca."

"Por que não? Algum dia."

"Nunca"

"Pergunte a Multivac."

"Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito."

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte?

Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

* * *

Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

"Este é X-23," disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, "Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!"

"Quietas, crianças." Disse Jerrodine asperamente. "Você tem certeza Jerrodd?"

"E por que não teria?" Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras "ac" na extremidade de Microvac significavam "automatic computer" em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. "Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra."

"Por que, meu deus?" inquiriu Jerrodd. "Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado." E, depois de uma pausa reflexiva, "No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar."

"Eu sei, eu sei", disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, "Nosso Microvac é o melhor de todos."

"Eu também acho," disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.
"Tantas estrelas, tantos planetas," pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. "Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora."

"Não para sempre," disse Jerrodd, com um sorriso. "A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar."

"O que é entropia, papai?" Jerrodette II perguntou, interessada.

"Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?"

"Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?"

"As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas."

Jerrodette I se prontificou a responder. "Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem."

"Olha o que você fez," sussurrou Jerrodine, exasperada.

"Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?" Jerrodd sussurrou de volta.

"Pergunte ao Microvac," propôs Jerrodette I. "Pergunte a ele como acender as estrelas de novo."

"Vá em frente," disse Jerrodine. "Ele vai aquietá-las." (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. "Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar."

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, "Imprima a resposta".

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, "Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar."

Jerrodine disse, "E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar."

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

* * *

VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, "Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão."

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. "Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos."

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

"Ainda assim," disse VJ-23X, "hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico."

"Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco."

VJ-23X suspirou. "O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais."

"Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…"

VJ-23X interrompeu. "Devemos agradecer à imortalidade por isso."

"Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas."

"No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida."

"Nem um pouco." Respondeu MQ-17J, emendando. "Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?"
"Duzentos e vinte e três, e você?"

"Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, "Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra."

"Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano."

"Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas."

"Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão."

"Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar."

"Ou a partir do calor dissipado?" perguntou MQ-17J, sarcástico.

"Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico."

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.
"Parece-me uma boa idéia," ele disse. "É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia."

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, "Poderá um dia a entropia ser revertida?"

VJ-23X disse, surpreso, "Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta."

"Por que não?"

"Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas."

"Existem árvores no seu mundo?" Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, "Viu!"

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

* * *

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

"Sou Zee Prime, e você?"

"Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?"

"Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?"

"Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?"

"Verdade, já que todas as Galáxias são iguais."

"Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente."

Zee Prime disse, "Em qual delas?"

"Não posso responder. O AC Universal deve saber."

"Vamos perguntar? Estou curioso."

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: "AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?"

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

"Como pode o AC Universal ser apenas isso?" Zee Prime perguntou.

"A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções."

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. "ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM."

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

"Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, "E alguma dessas é a estrela original do homem?"

O AC Universal disse, "A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA."

"Os homens que lá viviam morreram?" perguntou Zee Prime, sem pensar.

"UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO."

"Sim, é claro," disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, "O que houve?"

"As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta."

"Todas devem morrer, não?"

"Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles."

"Vai levar bilhões de anos."

"Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?"

Dee Sub Wun disse perplexo, "Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!"

E o AC Universal respondeu: "AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

* * *

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.
"O Universo está morrendo."

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, "Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos."

"Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo."

"Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico."

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

"AC Cósmico," disse o Homem, "como é possível reverter a entropia?"

O AC Cósmico disse, "AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

O Homem disse, "Colete dados adicionais."

O AC Cósmico disse, "EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES."

"Haverá um dia," disse o Homem, "em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?"

O AC Cósmico disse, "NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS."

"Você vai continuar trabalhando nisso?"

"VOU."

O Homem disse, "Nós iremos aguardar."

* * *

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, "AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?"

O AC disse, "AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

* * *

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

"FAÇA-SE A LUZ!"

E fez-se a luz.
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Fonte: Tocadoelfo